O PAU DA BALADEIRA


PRIMEIRO

Quisera eu torná-lo cúmplice e parceiro
acompanhá-lo como passam os dias
decifrar em sua voz palavras macias
e fazer com que o dia não passasse ligeiro

Pudera ele achar que os restos no cinzeiro
não apagam a lembrança do pulsar
caloroso nas mãos que conseguem alimentar
o instante que infelizmente é passageiro

Mas na ânsia de que tudo fique rotineiro
não posso perder a lucidez e acreditar
que nada daquilo pode ser verdadeiro

e assim como o brilho do mês de fevereiro
carnavalizo tais idéias e chego a pensar:
"quem me dera trepar o tempo inteiro..."

 

 

(pro Eduardo, pela ida à farmácia e pela idéia...)



Escrito por opaudabaladeira às 20h11
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Calma,

                  Agora

só faço versos por encomenda

de minh'alma.

 

                                 Fora isso

só poemas sem compromisso.

 

Veja bem:

        poemas cobrados não rimam

e quase sempre soam mal.

        Então, assim fica o mal dito

pelo dito: dejetos,

        palavras em desperdício.

 

 

Leandro Fernandes



Escrito por opaudabaladeira às 21h13
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Travessia

 

 

Não quero escrever poesia... Hoje não! Tudo o que sinto é uma forte vontade de deixar de ser o poeta que eu não sou e relatar algo de minha infância...

Não sei quantos anos eu tinha, não lembro de mim fisicamente. Mas, lembro-me muito bem da sensação do suor no rosto e do coraçãozinho batendo mais forte ao sentir na palma o frio do trinco da porta da cozinha. Sem coragem de pôr um único pé no quintal, eu abria cuidadoso a porta e, com os olhos arregalados contemplava por alguns segundos aquela escuridão... pouco depois, num movimento brusco, fechava a porta, girava a chave e voltava correndo para a sala onde minha família, calma, assistia algo na televisão. Em algumas noites chegava a fazer isso por duas vezes. Nunca, porém, fui sozinho àquela porta uma terceira vez numa mesma noite.

Meu Deus! Quanto me tentava mergulhar naquele quintal, atravessá-lo, enfrentar aquilo tudo que eu via e chegar à porta da frente de minha casa onde narraria à minha família minhas aventuras na travessia daquele mundo, mas, meu medo, sempre maior que meu desejo, não me permitia tal deleite...

Uma bela noite, porém, quando todos já estavam deitados, resolvi levantar em silêncio e caminhar devagar à porta da cozinha... alguns minutos atrás da porta... mão na chave. de repente, lembro-me de tomar o cuidado de abrir antes a porta da sala, por onde voltaria correndo para dentro de casa depois da travessia. De volta à cozinha... atrás da porta, a maçaneta gelada, a respiração ofegante, giro a chave, abro a porta e mergulho no quintal escuro... corro... as trevas... a luz... já estou na sala... foi tudo tão rápido. Ainda não creio. Fecho a porta da sala... logo depois, a da cozinha. Corro para a cama e durmo um sono profundo.

No outro dia, não compreendia se de fato fizera aquilo ou se tudo não havia passado de um sonho. Mas, ainda naquela semana, voltei a atravessar o quintal de minha casa uma outra vez. Sim... não era sonho, mas, ainda me custava crer que todo aquele meu receio houvesse desaparecido aquela noite... e ele não havia, de fato, morrido... não ali. não assim, de repente... Aliás, hoje sei que se tivesse esperado o medo sumir para cruzar o quintal, muito provavelmente eu não teria experimentado aquilo que por muito tempo desejei. O medo estava ao meu lado aquela noite, como sempre... e como nunca... eu apenas permiti ao meu desejo ser mais forte.

Fiz aquela travessia muitas outras vezes... preciso fazer outras tantas.

 

(Eduardo Gaspar 04.05.2006)

 

Pra mim mesmo...

                          ...e pra Thaís

Escrito por opaudabaladeira às 14h05
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